QUERERES

Tenho pensado em tudo que quero
Quero o mundo e o quero inteiro
Quero sabor de chocolate
E quero vidro embaçado
Quero correr atrás de borboleta
E voar com ela pelos vales
Quero cheiro de chuva no mês de janeiro
Quero bicho com asa na janela do quarto
Quero três suspiros apaixonados
Quero odor de percevejo
Quero fruta colhida do pé
Quero árvore de tronco largo
Quero aquele abraço bem apertado
E ser calada num beijo
Quero rede na varanda
Quero palavras de carinho
Quero canto de passarinho
Quero pular atrás da banda
Quero um soneto e um riso bem alto
Um beijo jogado de longe
Quero água pura de qualquer fonte
E coração sobressaltado
Quero coragem e um pouco de medo
Pra enfrentar dor e aventura
Um olhar cheio de ternura
Um colo pra chamar de meu aconchego
Quero praia, onda e areia
Choro, vela e brisa
Vento no rosto, suor na camisa
Quero mão que me despenteia
Quero flor no cabelo e outro adereço
Quero um cheiro no pescoço
E por querer tudo tanto e tão pouco
Eu nunca saberei se mereço
(2007)

Escrito por Gi às 10h57
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Caso João Hélio (À 4 mãos*)

Hoje venho até este espaço para falar um pouco de uma questão séria que entrou em pauta pela brutalidade com que foi morto o pequeno João Hélio. Vamos a ela:

Maioridade penal, ressocialização, direito da família da vítima, segurança pública...

Quando nos deparamos com um fato de tamanha amplitude como este que me refiro, sempre nos indignamos e se somos chamados a opinar, fazemos com o coração e nunca com a razão.

Sabemos que o cerne de todo o problema da segurança pública falida do nosso Estado (latu senso) anda lado a lado com a má distribuição de rendas e oportunidades para as famílias brasileiras. Os jovens, principalmente da periferia das grandes cidades são sempre excluídos das agendas sócio-educativas, cultural e de trabalho que é oferecida a jovens de lugares menos periféricos. E mais, são resignados a permanecerem no estado de marginalidade, que tende a se agravar conforme agravam-se as condições de vida da população em geral, fruto logicamente da condução das políticas dos últimos governos.

 

Se nós perguntarmos a um engenheiro o que é mais essencial para que um prédio não caia, ele dirá que as “sapatas”, as vigas de sustentação, devem ser bem sólidas e estruturadas. É verdadeiro da mesma, forma que para termos uma sociedade menos violenta – porque não só bandidos e infratores juvenis são violentos pois banqueiros são violentos, a mídia é violenta, as grandes empresas são violentas -, mais educada, mais compreensível, é preciso mudar na base, no berço. Deve ser inserido no embrião do cidadão (que começa a ser formado no jardim 1 ou mesmo na creche) os valores morais, os valores do trabalho, coisas que pra mim ou pra você que lê esse “blog” parecem simples mas, com certeza, não é para pessoas menos instruídas.

E qual é a maior reflexão que tiramos do caso João Hélio? Pra mim é o grau exacerbado de caos em que a sociedade brasileira chegou, na qual já não mais a violência denota que algo está fora da ordem, mas a crueldade ganha espaço e não poupa nem crianças, nem ninguém. Como dito no início, poderíamos fazer um discurso objetivo, com concreticidade e racional o bastante capaz de conter análises estatísticas e dados empíricos que expliquem a violência e a crueldade atual. Mas o coração nessas horas fala mais alto e dói ao repassar na mente a cena da tortura de uma criança de apenas 6 anos. Poderia ser da sua, da minha família, e na verdade foi. Foi da família dos que estão cansados de tamanha covardia, de tanta violência, da barbárie instaurada. Não está ao nosso alcance o freio pra isso tudo mas podemos, como seres críticos e conscientes dos direitos que temos, como o direito a vida, contribuir para que, os que devem acabar com isso, o façam o mais rápido possível, a longo, médio, e curto prazo.

*Texto de RdC e Giza

Escrito por Gi às 14h18
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Pessoa pra pessoa!

Olá pessoas! Vim atualizar o blog, o que tenho feito agora com mais frequência, mas por não saber o que escrever e rejeitar hoje colocar aqui algo de minha autoria, resolvi postar esse lindo, sensível e delicado poema do Fernando Pessoa, heterônimo Alberto Caeiro, que é interpretado lindamente por Bethânia no dvd Maricotinha (dvd este que já vi umas mil vezes). Aos que paci6encia e tempo tiverem, não se arrependerão!

Mil beijos a todos!

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
(...)
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.

(...)
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


(...)
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
(...)
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro

Escrito por Gi às 20h50
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Ahhh essa cidade!

Em função do congestionamento na minha linha telefônica, as toneladas de correspondências recebidas, o entupimento da minha caixa de e-mails e os diversos pedidos nas ruas, eu resolvi postar novamente. Tudo bem pessoal, eu sou uma pessoa muito atarefada mas sempre encontro um tempinho para os meus milhares de fãs rsrs

E sem saber o que escrever resolvi falar um pouquinho sobre a minha cidade!

Andei pensando no Rio esses dias e vi o quanto é difícil descrevê-lo só em palavras, música ou qualquer forma de arte. Essa cidade, que parece que tem vida, e anda sozinha passeando pelos bairros mais inóspitos, pelas vielas mais estreitas, pelas ruas mais escuras e perigosas, corajosa segue sem ouvir o som dos tiros e sofre com o lamento das crianças de mãos estendidas a procura do que se possa caber nela que alimente ou atenue o sofrimento. Mas essa cidade não é só sofrimento.

É feita de luz e cor, de sorrisos brancos e pernas douradas, de abraços dos desconhecidos e de luas outras que não aquelas 4 que conhecemos. O Rio é uma morena alegre, que se equilibra entre a linha tênue do mar de Ipanema e a curva suntuosa da montanha que carrega cansada um Cristo de braços abertos. É um senhor idoso que entre cartas e lembranças sabe que gastou o que pôde da vida. E é ainda um criança de pés descalços, na terra batida, esperando o arremesso do escanteio para finalizar a pelada do dia com um gol histórico, ansiosa pra que o amanhã chegue logo e porque é decisão de campeonato.

Pra mim é isso o Rio, essa ciade que apesar dos pesares de mantêm viva, corada, colorida, alegre e encantadora. Amo essa cidade, amo os cariocas, amo o esprírito Rio, a alma Rio, o jeito Rio de ser. É é do nosso amor, de todos (ou quase todos), que ela sobrevive.

"É dessa cidade que sai minha alegria e meus melhores dias

É dela que me alimento de montanha

Me embriago de mar

Me encanto de gente

Me revigoro de samba

É ela que nunca hei de desamar

Sou sua devotada amante

Sua filha apaixonada

Sua mãe zelosa

Sua irmã admirada"

Escrito por Gi às 00h42
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